No último post que escrevi, fiz uma referência que pretendo esclarecer, sob pena de ser mal interpretado. Já há muito que ambicionava tratar no Belogue deste tema, que considero simultaneamente sublime e subtil, porque nos acompanha a todo o instante, com um impacto esmagador, sem que dele nos apercebamos.
Pergunto-vos: Já vos aconteceu sentir que tiveram um azar tremendo por terem nascido onde nasceram? Nunca sentiram que gostavam de ter nascido num país mais desenvolvido, onde tivessem mais oportunidades, mais gente, mais experiências?
Deixem-me pôr isto noutro prisma e reformular a questão:
Já alguma vez sentiram que tiveram uma sorte tremenda por terem nascido e viverem em Portugal[1]?
E se tivessem nascido no Sudão, na Somália, na RDCongo, na Guiné, no Zimbabwe, no Burundi, na Etiópia, em Cuba, no Haiti, na República Dominicana, na Jamaica, no Afeganistão, na Tchetchénia, no Irão, na China, no Sri Lanka, no Paquistão, na Índia, em Israel, na Palestina, no Bangladesh…
Vou directo ao assunto. O patriotismo que todos nós acabamos por sentir, de uma maneira ou de outra, não pode continuar a legitimar certo tipo de abusos aos Direitos Humanos.
Não há qualquer razão para que seres humanos morram à sede e à fome!
Não há qualquer razão para que seres humanos sejam privados da sua liberdade física, sexual, de expressão, de orientação sexual e até religiosa[2]!
Não há qualquer razão para que seres humanos não tenham acesso a cuidados elementares de saúde, de habitação ou de educação!
Mas todos nós persistimos nisto. Tudo nos passa ao lado como se não fôssemos capazes de ver. Só nos incomoda quando o problema se torna próximo e por motivos egoístas. Se alguém nos morresse à fome à porta de casa, certamente ficaríamos sensibilizados. Porque é que assim não ficamos?
Acredito piamente que muitos não agem porque não se sentem capazes de fazer a diferença. Ninguém pode mudar as coisas[3] actuando isoladamente! E este post pecará sempre pela incipiência.
Mas quero dedicar uma palavra de repúdio a esta sociedade que se diz global e cuja globalidade só serve para certas coisas que nos convêm enquanto nacionais de um certo País. Um País desenvolvido que se preze não se deve ater apenas às necessidades básicas dos seus nacionais. Não concordo que, sob a bandeira de um qualquer patriotismo, se aceite com leviandade esta disparidade de condições. Uns morrem obesos e outros tísicos de fome? Não somos todos iguais? Qual é a diferença entre um português, um norte-americano ou um guineense que morre à sede? A única diferença é a nacionalidade.
E se é para isto que serve termos uma pátria, um país ou uma nacionalidade, estamos todos muito errados.
Temos linguagem, tradições, organização política e educação próprias… Mas há certos valores que nunca podem esbarrar contra o que é próprio e o que é alheio. As fronteiras nacionais de todo o Mundo devem esbater-se incondicionalmente face a certos problemas.
E nisto tudo, impõe-se um papel pro-activo de organizações internacionais a uma escala nunca vista.
Ainda hoje de manhã ouvia na televisão e num contexto inteiramente desligado deste: «É preciso e é urgente uma política diferente! É preciso e é urgente uma política diferente! É preciso e é urgente uma política diferente!»
Pois é.
[1] Ou num qualquer País “desenvolvido”.
[2] Refiro-me a qualquer tipo de falta de liberdade religiosa que conte com o apoio do Estado.
[3] A não ser Carlos Slim Helú, Bill Gates, Warren Buffett, ou outros tantos assim. Já agora fica uma boa notícia: http://www.ionline.pt/conteudo/72606-a-campanha–robin-hood-warren-buffett-e-bill-gates-sem-ser-preciso-roubar